sábado, 26 de maio de 2012

Saudade da linguagem da minha avó



Hoje na oficina de Guimarães Rosa, vendo tanta riqueza na linguagem que ele registra, cria e recria... Fiquei lembrando da linguagem que minha avó utilizava. Lembrei de algumas palavras e me assustei porque percebi que estou começando esquecê-las e fiquei com medo porque o esquecimento dessa linguagem é o desaparecimento de uma existência, de um mundo específico, de uma singularidade. Fiquei lembrando não só das palavras, mas da voz, do jeito de falar, do gesto, do sentimento, do corpo que se atualizava junto com elas. Lembro dela falando ainda mais quando achava alguma coisa absurda. Acho lindo o jeito como ela falava chitinho, essa palavra pra mim é cheia de carinho que além de se referir a tamanho pequeno vem acompanhada de uma imagem de afeto, cuidado, ela geralmente falava para se referir a alguma criança, ou uma pessoa pequena. Chitinho me fez lembrar franzino, que é alguém magro com certa fragilidade, mas também cheia de cuidado com a pessoa caraterizada por ela de franzina. Lembro dela falando de uma comadre: "Ela era chitinha toda franzina" com jeito meigo. Essas e tantas outras palavras povoam minhas lembranças. Não esqueço de um dia quando eu tinha nove anos de idade que ela disse pra eu pegar o bacio debaixo da cama e eu olhei várias vezes e só via um pinico e ai falei - Vó não vi nenhum bacio não. Aí ela meio brava foi lá e me mostrou o tal bacio que era o pinico. Foi nesse dia que eu descobri que pinico também era um bacio. Como essas palavras, várias outras, configuram um mundo do seringal fundido num mundo indígena do qual ela fez parte: Cunhantã, Curumim, Olha já!, monstro (uma pessoa, um animal, ou outra coisa grande: "ele era um mostro de um homem!"), agora (como adversidade), amarelão(a) empompado(a) (pessoa pálida com vício de cheirar a rola/piroca, xibio/cachimbo ou por comer bustela). E o jeito de revidar quando alguém a contrariava: O que me importa! (com a maior indiferença), mas o melhor mesmo era: não dou nem meu cu pra cheirar que não é rosa!(fazendo poco mesmo!). Eu adoro esse e sempre faço uso dele quando alguém vem querer se fazer de besta pro meu lado!

2 comentários:

  1. Que lindo prima..belas palavras. E típico de nossa vó....

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fico tão feliz de saber que vc leu essa postagem e tenha gostado. Beijos

      Excluir