terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Nossos corações cada vez mais dolorido e nosso olhos não deixam de ficar molhados com nossas lágrimas

                              Seringueiras com as marcas de corte - Foto Márcia Mura


Desde que me entendo por gente que venho lidando com injustiças. Minha família vinda para Porto Velho na década da decadência do seringal em busca de sobrevivência. Meu avô falecido, meus tios vindos para a cidade não permitiu que minha avó permanecesse com os dois filhos menores, o caçula e a caçula no seringal, embora a minha mãe fosse adolescente quando seu pai morreu e tenha vindo trabalhar na cidade de empregada doméstica, não se adaptou e voltou para casa da mãe no espaço do antigo seringal, às margens do Rio Madeira, território ancestral Mura. 

Cresci vendo minha mãe e minha avó lavando as roupas de médicos e médicas militares para ganhar algum trocado, para complementar a renda minha mãe fazia trabalhos domésticos nas casas desses médicos e médicas, tudo era hora extra, pois ela trabalha num colégio de freiras salesianas, não sei como ela conseguia trabalhar tanto.  Foi por conta desse emprego na escola salesiana que ela conseguiu me colocar para estudar o jardim de infância numa escola salesiana e foi por conta das faxinas que ela fazia na casa de uma médica que eu tinha uma única amiguinha na escola, pois quando as outras meninas diziam a essa coleguinha para não brincar comigo, porque eu era pobre, ela dizia " Não ela é minha amiga,, minha mãe disse que é para eu brincar com ela." Enfim, entre as próprias crianças se reproduzem essas coisas de classe social e discriminação, pois elas reproduzem o que é ensinado a elas.

 Vi a exploração de minha família por essa classe rica, depois eu mesma fui trabalhar de empregada doméstica para bancar meu magistério, mas nunca fui de deixar me subjugar, não aceitava desafora de patroa e patrão, saía fora e ia atrás de outro trabalho. 

Testemunhei muitas injustiças cometidas com minha família e com outras famílias que faziam parte das mesmas condições sociais que a minha. Quando Jovem, fui construindo uma visão ainda mais critica sobre essa coisa de divisão de classe social e continuei insubjugável. Minha mãe disse uma vez: " Não sei porque essa menina é revoltada desse jeito".

Minha mãe sempre trabalhou muito para criar os filhos sozinha (embora tivesse apoio de uns dos meus tios) e uma das prioridades dela era a alimentação e a educação, no final do ano não deixava de comprar nossa muda de roupa nova e nosso par de calçado. Assim como ela sendo seladora da escola salesiana conseguiu me colocar para estudar na escola primaria delas, só o jardim de infância, pois depois ela deixou de trabalhar para as salesianas e eu fui para a escola pública, mas quando fui fazer o ginásio, ela já trabalhava nos serviços gerais da secretaria de educação de estado e conseguiu me colocar numa escola pública de referência, era um instituto de formação de Magistério, onde estudei do quinto ano do ginásio ao terceiro ano, entrei adolescente na escola e sai mãe do meu primeiro filho e com o magistério o que garantiu eu passar no primeiro concurso e entrar no quadro de professores estatutário. Foi já uma parte do sonho da minha mãe realizado.

Minha mãe chorou quando aos 20 anos disse a ela que estava grávida, porque achava que eu ia parar de estudar e não ia dar o diploma universitário que tinha prometido a ela, disse a ela para não se preocupar que ia cumprir minha promessa e em 2016 ela entrou numa sala de defesa de doutorado da filha dela na USP e eu dei o diploma prometido a ela. Eu tinha prometido isso a mim também, para fazer valer tanto trabalho dela, tantas roupas dos patrões que ela lavou, todos os filhos estudaram até onde era da responsabilidade dela, enquanto ela trabalhava no emprego oficial durante o dia, levantando todos os dias as cinco da manhã e voltando e chagando as sete da noite em casa ainda ia lavar roupa até tarde da noite e passar roupa na madrugada, o final de semana ou era lavando roupas dos outros ou era fazendo faxina, a medida que fomos crescendo nós a ajudava nos serviços, eu mesma ia para as faxinas com ela e outros trabalhos extras que ela fazia. Eu a via se matando de trabalhar e pensava vou estudar... Vou estudar... Eu sabia que a única maneira de não ter que viver da mesma maneira que minha mãe era estudando e foi o que eu fiz, mas estudei para ter mais ferramentas para lutar contra injustiças, minha mãe me deu essa possibilidade.

Sempre me indignei com a sobreposição da classe dominante! È assim que estou me sentindo diante dessa política genocida, que começou desde a chegada dos colonizadores. Dói a memória de nossos antepassados que escaparam do extermínio e agora nós dói mais uma vez testemunhar mais massacres, embora eles nunca tenham cessado. Quantos e quantos foram assassinados por defender os direitos de seu Povo, indígenas, populações tradicionais, periferia nas cidades, nelas, os negros, indígenas, pobres. 

Agora com tantas perdas em massa nesses tempos de pandemia me dói todas as perdas, pois todas as vidas importam, mas saber que nossas crianças, jovens e idosos estão tendo suas vidas arrancadas por essa política genocida que mais uma vez faz uso de um vírus para nos matar é de uma grande revolta. 

Fico pensando nos idosos que já enfrentaram tanta injustiça, tanto sofrimento, nas aldeias, nos espaços de seringais que resultaram nos espaços ribeirinhos, que depois de terem vencido tudo: Exploração, doenças, mortes e agora morrem entubados, isso é revoltante demais. Foram muitos desde o começo da pandemia, mas vou trazer presente aqui dona Lurdes, mulher  seringueira de contexto ribeirinho, parteira, guardiã das plantas medicinais, carregava consigo os saberes das mulheres ancestrais, foi a primeira que fez a passagem por causa do Covis19, agora dona Dôris que gostava tanto de contar as histórias do tempo do seringal e também carregava consigo muitos conhecimentos tradicionais e hoje a Dona Cora, minha vizinha aqui da Maloca Querida em Porto Velho, era Manauara, tinha orgulho de dizer que era de Manaus, antes de cair doente foi visitar seus parentes, na volta me contou da viagem. Fazia tempo que ela não vinha ao portão do quintal dela, já tinha implicações de saúde e com o Covid19 não resistiu e também teve meu tio que teve um diagnóstico de derrame no pulmão, como não testou Covid a família fez o velório. Um velório diga-se de passagem Mura, apesar do Cristianismo presente, muitos elementos considerados profanos pelos cristãos estiveram presentes, isso me deixou satisfeita, se fosse na igreja não teria como ser como foi. Depois de uma noite e uma parte da manhã o velando com choros, lembranças bonitas, risos, peidos e a bebida para os que cavaram a cova ao lado da casa, foi feita a dolorida despedida final. Após o velório subi o rio para ficar com minha mãe uns dias ao voltar para Porto Velho a notícia da morte da dona Dóris... Gritei de revolta... Não quis acreditar... Ainda tinha tanto para ouvir de suas histórias. Quando foi na manhã de hoje a funerária veio buscar a dona Cora, escutei os aplausos dos familiares ao ser tirada de casa. Era a última homenagem a ela. Junto com meu filho Tanã e meu sobrinho Guilherme que procuraram me acalmar, lembramos juntos da relação dela com os meninos que jogavam bola na rua, das  brigas com eles por causa da bola que caía no quintal dela e da maneira que eles descontavam os carões apertando na campainha que ficava no seu portão. Rimos das lembranças para distrair um pouco as tristezas.

Juntou tudo... O jeito foi chorar e ao mesmo tempo continuar trabalhando na campanha de apoio aos Mura aqui do contexto ribeirinho e cidade de Porto Velho, pois são muitas as demandas de tratamento de saúde, alimentos e até testes para o Covid19 que a secretaria municipal de saúde diz estar em falta. O jeito é seguir apesar do luto na luta! Como a seringueira com as marcas de seus cortes e que trazem consigo muitas histórias de tempos de exploração, em que homens, mulheres e crianças também eram marcados em seus corpos com a invasão, com a introdução nos espaços de seringais por meio de muitas violências que se tornaram cicatrizes que ainda sangram cada vez que as memórias são recuperadas, é dolorido saber que esses que viveram esse tempo e resistiram agora foram derrotados pelo desgoverno, porém planejado no que diz respeito as políticas genocidas! 

É preciso ser forte! Foi isso que o Bentive veio me dizer hoje pela manhã. É o que estou procurando fazer, buscando apoio para a parentada e me recompondo para descer o rio de novo. Kuekatu rete!





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